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Não, eu não fui tomada por um surto de Regina Duarte. Mas se ela que é uma figura pública pode ter medo do Lula, eu também tenho direito a expor os meus medos bobos. Pois eu tenho medo de morrer atropelada. Acho que todos os carros estão na rua só para me pegar, e não há quem me convença do contrário. Eu tenho medo de deixar a janela aberta e entrarem bichos em casa. Eu tenho medo de brinquedos de parque de diversão. Eu tenho medo de dormir sozinha e principalmente da possibilidade de mãos saírem debaixo da cama e me puxarem. Eu tenho medo de entrar em combustão espontânea. Eu tenho medo de filmes de demônio. Eu tenho medo de aranha. Eu tenho medo de ouvir "não". Muito medo. Eu tenho medo de mar. Eu tenho medo de morrer engasgada porque já engasguei de perder o ar várias vezes.
Quando eu tinha uns cinco anos de idade, viajei para a casa de uma prima que era um pouco mais nova que eu. Minha mãe comprou duas bonecas: uma era um presente para ela, a outra era para mim. Uma era uma boneca que eu queria há tempos; a outra era mais bonita do que a primeira, mas não era a que eu já andava a querer. E, bem, vocês já imaginam o que eu respondi à minha mãe quando ela me disse para escolher qual boneca eu queria:
Acho que em qualquer área da produção humana que se debruce sobre a natureza subjetiva das coisas – seja a filosofia, a meditação, a semiótica psicanalítica – se chega à mesma conclusão: a de que todas as coisas contêm o seu oposto, ou mais ainda, a de que todas as coisas são o seu próprio oposto. Não são raros os exemplos de palavras que adquirem um sentido a partir de raízes que significavam justamente o contrário. Isso vale também para o amor e o ódio, a beleza e a feiúra, a humildade e a soberba, o feminino e o masculino, o ying e o yang. Um contém o outro e dele não se dissocia; um de certa forma é o outro porque a ele se opõe – como o seu reflexo no espelho é você, mas é você ao contrário.
Foi pensando nisso que uma das dúvidas que sempre tive a respeito de Deus se esclareceram. Eu dizia, como é que Deus, que é todo amoroso, pode condenar seus próprios filhos à tortura eterna se não forem bons o suficiente? Isso para mim não fazia o menor sentido. Mas agora acho que não poderia ser diferente. Só a maior fonte de amor do mundo poderia ser também a fonte da maior crueldade. E agora tudo faz muito sentido, Deus ser o alfa e o ômega, o Deus ciumento e vingativo do Velho Testamento e o Deus misericordioso da Boa Nova. O Deus que mata e humilha um Jesus Cristo para torná-lo sua glória mais luminosa. Se nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e nós somos a contradição, Deus só pode ser a Suprema Contradição.
Isso não significa que eu tenha passado a acreditar no inferno. Ou que tenha encontrado um sentido para a minha vida. A questão é abandonar essa lógica binária e maniqueísta que nos engole na hora de olhar as coisas. 0 e 1, o mocinho e o bandido, são formas da mesma coisa. No fundo, eu sempre soube.
Hoje conversei com umas pessoas da minha sala que falavam de gente da sala mesmo que eu não faço a mínima ideia de quem seja. Mais de uma pessoa. Depois eu reclamo que ninguém me ouve. Eu sequer vejo esse povo, meu Deus.
# 1. Agora que caiu a lei da mordaça e os funcionários públicos podem falar mal do Estado à vontade, sinto falta de ser transgressora.
Estou por aqui com indies. Cheia, enojada. Se vir mais uma menininha com calça legging de lamê, jaqueta imitando couro e corte de cabelo que parece ao contrário, vomito.
Eu sempre penso nos meus avôs que não conheci. Essas figuras míticas que surgem para explicar os primórdios da família sempre me interessaram demais. Não sei se todo mundo tem esse gosto pelas origens familiares, ou se eu o tenho porque minha família é adotiva e minhas origens genéticas provavelmente serão um eterno mistério para mim. Fato é que não conheci meus avôs, mas eu os carrego comigo.
Conseguimos credenciais pra Revista Som pra cobrir o Guaraná Antarctica Street Festival. E, embora num passado longínquo eu já tenha feito street dance (acreditem se puderem), o GAS Festival não era muito a minha praia. Mas foi bem legal! A produtora mimou bastante os jornalistas, tinha até brigadeiro de copinho na sala de imprensa. E, bem, vocês sabem o que uma boca livre faz com o meu espírito. E como eu gosto de fotografar as bandas, meu Deus. Eu me sinto tão confortável na minha pele - sei que meu lugar não é na redação, muito menos naquela sala de imprensa cheia de posers. Como os jornalistas de música são posers, putaquepariu. A maioria estava ali claramente para mostrar que tinha A melhor câmera. Eles precisam de um aviso: pendurar uma Nikon reflex de 3 quilos e 3 mil reais no pescoço não faz de você um profissional. Principalmente se sua primeira providência na sala de imprensa for checar seus recados no Orkut.
Nada como viajar com fones de ouvido. Já dizia Björk: my headphones, they saved my life. Meus fones de ouvido também salvam minha vida. Nada como escutar alguma coisa bem boa sentindo o cheirinho do café do Prata, olhando as árvores correrem para trás e para trás pela janela.
My love is an analogy,
A haunted afternoon."
Ele era só "mais um pretinho na Febem", mas a história me comoveu. Menino triste, desamparado, adotado por impulso por uma família que nunca o quis. Menino perturbado, problemático, pulou de galho em galho mas ninguém nunca o acolheu. A mãe adotiva o empurrou para a mãe biológica. Esteve tudo bem até que ele bateu na irmã e foi mandado de volta. Dormia trancado num quarto separado do resto da casa. Durante o dia, só tinha acesso à cozinha, onde os armários permaneciam trancados para que não roubasse. Não era sem-teto, mas não tinha casa. Precisava de tratamento psiquiátrico, internaram-no num centro de recuperação para drogados. Ele não usava drogas. Fugiu. A irmã adotiva o odiava. O pai adotivo confessou a uma assistente social que pensava em matá-lo se ele ameaçasse sua família. Ele não fazia parte de família alguma. Tinha sido expulso da escola e ninguém se pôs a procurar outra. A mãe adotiva era advogada. O menino tentou matar o pai adotivo. Foi preso e mandado para a Febem. A irmã adotiva espalhou entre os internos que o menino era estuprador. Um dos garotos chamou o guarda e disse que uma coisa muito errada tinha acontecido no quarto. O guarda viu o menino caído sobre uma mesa. Foi enforcado com uma camiseta. A mãe adotiva foi à justiça pedir indenização por dano moral ao Estado. O Estado disse, em entrelinhas, que nada devia porque tinha na verdade resolvido o problema da mãe.
Quando peguei esse processo, tudo o que pude fazer foi bater um carimbo. Certifico e dou fé.
Certificar o cinismo do mundo me enoja.