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-- Não sei viver sem você.
Quando eu estava na quarta série, minha professora de redação decidiu promover um debate sobre a pena de morte. Nunca entendi por quê. Só sei que fui designada para defender a pena de morte e consigo me ver ainda dizendo, com menos de um metro e meio de altura: se alguém matasse sua mãe, você não ia querer que essa pessoa morresse? Foi o melhor argumento que pude arrumar, mas mesmo naquele tempo eu o achei ridículo. A professora gostava de mim e disse que eu quase a tinha convencido.
Não, eu não fui tomada por um surto de Regina Duarte. Mas se ela que é uma figura pública pode ter medo do Lula, eu também tenho direito a expor os meus medos bobos. Pois eu tenho medo de morrer atropelada. Acho que todos os carros estão na rua só para me pegar, e não há quem me convença do contrário. Eu tenho medo de deixar a janela aberta e entrarem bichos em casa. Eu tenho medo de brinquedos de parque de diversão. Eu tenho medo de dormir sozinha e principalmente da possibilidade de mãos saírem debaixo da cama e me puxarem. Eu tenho medo de entrar em combustão espontânea. Eu tenho medo de filmes de demônio. Eu tenho medo de aranha. Eu tenho medo de ouvir "não". Muito medo. Eu tenho medo de mar. Eu tenho medo de morrer engasgada porque já engasguei de perder o ar várias vezes.
Hoje conversei com umas pessoas da minha sala que falavam de gente da sala mesmo que eu não faço a mínima ideia de quem seja. Mais de uma pessoa. Depois eu reclamo que ninguém me ouve. Eu sequer vejo esse povo, meu Deus.
# 1. Agora que caiu a lei da mordaça e os funcionários públicos podem falar mal do Estado à vontade, sinto falta de ser transgressora.
É fato notório que eu não gosto de cachorros. Não gosto mesmo. Cachorros, quando não são propensos a rosnar e morder, são seres extremamente dependentes. Estão sempre demandando a sua atenção de formas irritantes, porque não sabem falar. Eu gosto de gatos, mas provavelmente jamais terei um bicho de estimação aqui em casa. Mas tem um bichinho que me visita quase todos os dias, por volta das oito e meia da manhã: é o Jarbas Passarinho.
Entre meu medo de grupos de meninos de rua e meu medo de ser atropelada, venceu o dos meninos; passei correndo no meio de um monte de carros para mudar de calçada. Mas isso é porque eu nunca fui atropelada. Se isso já tivesse acontecido, acho que eu ia acabar cavando um buraco no chão, sei lá.
Lembram de quando eu assisti Matrix pela primeira vez, depois li metade das Meditações Metafísicas de Descartes e pirei na batatinha achando que o mundo físico era uma criação da minha mente? Provavelmente não, já que na época eu ainda não sabia o que era blog. Mas como é gostoso revisitar essas angústias, não? É tão bom ir cutucando a ferida para deixá-la ainda pior do que a original! Agora, além de não ter certeza da existência das coisas, chego a duvidar das minhas próprias memórias, e o que é pior, das minhas próprias ideias - já que a linguagem me precede há milênios e não há nada de novo ou de minimamente original*. O bom é que a ferida teimosamente produz nova casca para a gente arrancar e, mesmo que ela eventualmente deixe de existir como ferida, sempre se faz presente como cicatriz.
Minha mãe disse que hoje virei paulistana de verdade. É que fui roubada na rua, em plena luz do dia. Uns moleques me cercaram e puxaram minha bolsa, mas como eu sempre uso bolsa a tiracolo, acabaram me derrubando no chão. Um sujeito chegou gritando e eles correram. Levaram meu mp3, que a essa hora já deve ter virado um punhado de crack. Na bolsa, tudo o que eu tinha eram 7 reais na carteira. Mas pelo menos fiquei com meus documentos. O mp3, eu compro no XingLing a hora que quiser.