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Assisti 500 dias com ela de novo e fiquei triste.
Eu detesto quando as minhas aulas de semiótica psicanalítica descambam para uma psicanálise mais individual e menos social. Porque aí eu sou obrigada a abrir meus baús cheios de teia de aranha e, sabem, eu odeio aranha. Morro de medo de aranha.
Ele era só "mais um pretinho na Febem", mas a história me comoveu. Menino triste, desamparado, adotado por impulso por uma família que nunca o quis. Menino perturbado, problemático, pulou de galho em galho mas ninguém nunca o acolheu. A mãe adotiva o empurrou para a mãe biológica. Esteve tudo bem até que ele bateu na irmã e foi mandado de volta. Dormia trancado num quarto separado do resto da casa. Durante o dia, só tinha acesso à cozinha, onde os armários permaneciam trancados para que não roubasse. Não era sem-teto, mas não tinha casa. Precisava de tratamento psiquiátrico, internaram-no num centro de recuperação para drogados. Ele não usava drogas. Fugiu. A irmã adotiva o odiava. O pai adotivo confessou a uma assistente social que pensava em matá-lo se ele ameaçasse sua família. Ele não fazia parte de família alguma. Tinha sido expulso da escola e ninguém se pôs a procurar outra. A mãe adotiva era advogada. O menino tentou matar o pai adotivo. Foi preso e mandado para a Febem. A irmã adotiva espalhou entre os internos que o menino era estuprador. Um dos garotos chamou o guarda e disse que uma coisa muito errada tinha acontecido no quarto. O guarda viu o menino caído sobre uma mesa. Foi enforcado com uma camiseta. A mãe adotiva foi à justiça pedir indenização por dano moral ao Estado. O Estado disse, em entrelinhas, que nada devia porque tinha na verdade resolvido o problema da mãe.
Quando peguei esse processo, tudo o que pude fazer foi bater um carimbo. Certifico e dou fé.
Certificar o cinismo do mundo me enoja.
Agora entendo porque quando a Deusa expulsou Adão e Eva do paraíso, castigou-os com o trabalho.
Eu sempre sonho com a maré. Ela vem como um tsunami e eu sempre sei: mas só tenho tempo de me agarrar a alguma coisa. A onda vem e me cobre.
Tenho tido dias bastante inúteis desde que voltei de viagem e era isso mesmo o que eu queria. Mas eu não contava com o estado úmido das coisas. Não para de chuviscar, exceto quando chove. Em casa, as coisas nunca secam. Meus colchões ficaram úmidos. O pão de ontem ficou úmido. Minha toalha está sempre úmida. Minha roupa limpa está no varal desde domingo e não secou. Toda essa umidade é complacente demais, decadente demais. Meu maior desejo agora é um pouco de sol, um vento bem forte e seco. O frio não me incomoda.
Sempre lembro de um episódio de Gilmore Girls sobre o último dia de estágio da Rory, uma das personagens principais. O sonho dela é ser jornalista; e ela consegue um estágio acompanhando pai do seu namorado em um dos jornais da rede dele - diga-se de passagem, um sujeito podre de rico. Ao fim do período, ele diz a Rory que ela é muito competente e emenda:
Lembram de quando eu assisti Matrix pela primeira vez, depois li metade das Meditações Metafísicas de Descartes e pirei na batatinha achando que o mundo físico era uma criação da minha mente? Provavelmente não, já que na época eu ainda não sabia o que era blog. Mas como é gostoso revisitar essas angústias, não? É tão bom ir cutucando a ferida para deixá-la ainda pior do que a original! Agora, além de não ter certeza da existência das coisas, chego a duvidar das minhas próprias memórias, e o que é pior, das minhas próprias ideias - já que a linguagem me precede há milênios e não há nada de novo ou de minimamente original*. O bom é que a ferida teimosamente produz nova casca para a gente arrancar e, mesmo que ela eventualmente deixe de existir como ferida, sempre se faz presente como cicatriz.
Na minha pós de Direito, tem se falado muito em insegurança jurídica. Na minha pós de Comunicação, tem se falado muito em insegurança pessoal. Eu e quase todo mundo da minha geração temos enfrentado alguma situação de insegurança decorrente das escolhas que a gente fez no vestibular, quando mal tinha saído das fraldas. Quando foi que ficamos todos inseguros, meu Deus?
Acho que eu nunca obtive sucesso e/ou reconhecimento na vida por castigo divino, mesmo. Porque eu sou muito invejosa, gente! Vocês não fazem ideia!