7 posts tagged “reflexões”
Tem uma música pequenina da Björk no Homogenic que se chama Immature. A letra tem uns poucos versos e diz:
Como pude ser tão imatura
E pensar que ele poderia substituir
Os elementos faltantes em mim?
Que extremamente preguiçoso da minha parte...
Como pude ser tão imatura?
Maturidade, para ela, foi procurar a completude na música em vez de procurá-la noutra pessoa.
Mas porque isso seria maturidade? Qual a diferença, afinal?
Björk para mim é sempre aquela amiga mais velha que lhe dá conselhos. E nem sempre a gente concorda.
Não, eu não fui tomada por um surto de Regina Duarte. Mas se ela que é uma figura pública pode ter medo do Lula, eu também tenho direito a expor os meus medos bobos. Pois eu tenho medo de morrer atropelada. Acho que todos os carros estão na rua só para me pegar, e não há quem me convença do contrário. Eu tenho medo de deixar a janela aberta e entrarem bichos em casa. Eu tenho medo de brinquedos de parque de diversão. Eu tenho medo de dormir sozinha e principalmente da possibilidade de mãos saírem debaixo da cama e me puxarem. Eu tenho medo de entrar em combustão espontânea. Eu tenho medo de filmes de demônio. Eu tenho medo de aranha. Eu tenho medo de ouvir "não". Muito medo. Eu tenho medo de mar. Eu tenho medo de morrer engasgada porque já engasguei de perder o ar várias vezes.
Acho que em qualquer área da produção humana que se debruce sobre a natureza subjetiva das coisas – seja a filosofia, a meditação, a semiótica psicanalítica – se chega à mesma conclusão: a de que todas as coisas contêm o seu oposto, ou mais ainda, a de que todas as coisas são o seu próprio oposto. Não são raros os exemplos de palavras que adquirem um sentido a partir de raízes que significavam justamente o contrário. Isso vale também para o amor e o ódio, a beleza e a feiúra, a humildade e a soberba, o feminino e o masculino, o ying e o yang. Um contém o outro e dele não se dissocia; um de certa forma é o outro porque a ele se opõe – como o seu reflexo no espelho é você, mas é você ao contrário.
Foi pensando nisso que uma das dúvidas que sempre tive a respeito de Deus se esclareceram. Eu dizia, como é que Deus, que é todo amoroso, pode condenar seus próprios filhos à tortura eterna se não forem bons o suficiente? Isso para mim não fazia o menor sentido. Mas agora acho que não poderia ser diferente. Só a maior fonte de amor do mundo poderia ser também a fonte da maior crueldade. E agora tudo faz muito sentido, Deus ser o alfa e o ômega, o Deus ciumento e vingativo do Velho Testamento e o Deus misericordioso da Boa Nova. O Deus que mata e humilha um Jesus Cristo para torná-lo sua glória mais luminosa. Se nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e nós somos a contradição, Deus só pode ser a Suprema Contradição.
Isso não significa que eu tenha passado a acreditar no inferno. Ou que tenha encontrado um sentido para a minha vida. A questão é abandonar essa lógica binária e maniqueísta que nos engole na hora de olhar as coisas. 0 e 1, o mocinho e o bandido, são formas da mesma coisa. No fundo, eu sempre soube.
Fui passear sozinha na Paulista, como há muito não fazia, e me ocorreu que existe algo muito errado com o cinema nacional. Ou só eu acho estranho que todos os filmes brasileiros sejam estrelados pelo Selton Mello ou pelo Matheus Nachtergaele?
Cada vez que sai uma reportagem sobre aspectos biológicos do comportamento sexual humano, a conclusão é basicamente a mesma: nossas preferências, nossas paixões são fruto de estratégias evolutivas para garantir a continuidade e a diversidade genética da espécie. O que significa que enquanto acreditamos fazer sexo por diversão, nosso corpo está de fato interessado em procriar. Mas... a idéia de que o sexo existe somente para fazer bebezinhos não era coisa da igreja? Esse mundo está mesmo virado.
Quando se chega num corredor sem saída do labirinto, é preciso voltar. E nem sempre a gente tem coragem para fazer isso. A gente prefere não enxergar o que é óbvio: que é impossível ir para frente. Ou não vê o muro, ou fica tentando passar por cima - de um jeito ou outro, nunca dá certo. É necessário, como meu pai diria, "fazer frente para a retaguarda e seguir". Na vida, isso significa admitir um fracasso, coisa que todo mundo odeia fazer. Mas eu sei agora que tudo o que não se move na minha vida é fruto de decisões erradas que tomei - com ou sem consciência disso - e o melhor a fazer é dar as costas e voltar. Não estou falando da minha mudança para cá; agora, com o apartamento novo e tudo, eu acho que estou dando o passo a frente. Mas há outras coisas que ficaram presas no corredor do labirinto; já está mais que na hora de tomar outra direção. Só me falta criar coragem de dar o passo para trás.
Em geral, eu me recuso a acreditar que não existe nada após a morte, que o corpo é a existência final, que não existe uma mente ou alma suprema por trás das coisas e dos seres. Mas fica difícil acreditar numa divindade quando se ouve falar numa sujeita que mantém uma criança em casa como objeto particular de tortura. Mais ainda quando se descobre que na casa de tal sujeita moravam outros três adultos - marido, filho e empregada - que, se não participavam, no mínimo permitiam que tamanho absurdo acontecesse. Não há possibilidade de reparação pelo que ela fez; a única coisa que se assemelha à justiça, nesse caso, é a vingança, e como a gente já aprendeu, "a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena..." Como é um espírito de amor consegue permitir a existência desse tipo de aberração? Vai dizer que a menininha tinha que oferecer a outra face? Eu acho que o inferno é muito pouco para essa mulher.