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Ele era só "mais um pretinho na Febem", mas a história me comoveu. Menino triste, desamparado, adotado por impulso por uma família que nunca o quis. Menino perturbado, problemático, pulou de galho em galho mas ninguém nunca o acolheu. A mãe adotiva o empurrou para a mãe biológica. Esteve tudo bem até que ele bateu na irmã e foi mandado de volta. Dormia trancado num quarto separado do resto da casa. Durante o dia, só tinha acesso à cozinha, onde os armários permaneciam trancados para que não roubasse. Não era sem-teto, mas não tinha casa. Precisava de tratamento psiquiátrico, internaram-no num centro de recuperação para drogados. Ele não usava drogas. Fugiu. A irmã adotiva o odiava. O pai adotivo confessou a uma assistente social que pensava em matá-lo se ele ameaçasse sua família. Ele não fazia parte de família alguma. Tinha sido expulso da escola e ninguém se pôs a procurar outra. A mãe adotiva era advogada. O menino tentou matar o pai adotivo. Foi preso e mandado para a Febem. A irmã adotiva espalhou entre os internos que o menino era estuprador. Um dos garotos chamou o guarda e disse que uma coisa muito errada tinha acontecido no quarto. O guarda viu o menino caído sobre uma mesa. Foi enforcado com uma camiseta. A mãe adotiva foi à justiça pedir indenização por dano moral ao Estado. O Estado disse, em entrelinhas, que nada devia porque tinha na verdade resolvido o problema da mãe.
Quando peguei esse processo, tudo o que pude fazer foi bater um carimbo. Certifico e dou fé.
Certificar o cinismo do mundo me enoja.
Agora entendo porque quando a Deusa expulsou Adão e Eva do paraíso, castigou-os com o trabalho.
Sempre lembro de um episódio de Gilmore Girls sobre o último dia de estágio da Rory, uma das personagens principais. O sonho dela é ser jornalista; e ela consegue um estágio acompanhando pai do seu namorado em um dos jornais da rede dele - diga-se de passagem, um sujeito podre de rico. Ao fim do período, ele diz a Rory que ela é muito competente e emenda: