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Para continuar a saga de aventuras portenhas, acho que não há meio melhor de começar que pelo começo: a viagem de avião. Como já faz um tempo que a imprensa só fala em caos aéreo e queda de aviões, eu tinha todo o direito de estar em pânico com o meu primeiro vôo. Mas depois que fiz o check-in na maior tranqüilidade do mundo, toda a minha ansiedade se transformou em empolgação, principalmente quando eu descobri que meu lugar era na janelinha.
No avião já me sentia em território estrangeiro - a empresa era chilena e as aeromoças diziam despegar em vez de decolar. O despego foi a única parte realmente ruim, porque a velocidade e a pressão se alteram muito em pouquíssimo tempo. Mas logo o avião começou a pairar sobre as nuvens, e foi a visão mais impressionante da minha vida: entre um oceano branco cremoso e azul celeste. Quando eu era criança, uns dos meus sonhos malucos era viajar de avião, abrir a janelinha e pegar um pedaço de nuvem. Mas as nuvens não são de algodão; são de sorvete. A luz era tão intensa que devo ter queimado metade da minha retina olhando, mas valeu a pena. E as fotos não fazem jus, mas dão uma idéia.
Depois de passarem as nuvens, a paisagem se converteu numa espécie de Google Earth ao vivo. A mais de 11 mil metros de altura se consegue ver os contornos das plantações, as curvas dos rios, o formato das cidades, para onde vão as estradas, e era tudo novo e lindo para mim.
Chegar num país estranho, por vizinho que seja, me deu um frio na barriga inigualável. Delicioso, porém. Achei muito divertido ser estrangeira, mesmo num lugar onde a maioria das pessoas sequer me olhava. Os portenhos são muito na deles - a coisa mais difícil era trocar olhares com o pessoal por quem a gente passava na rua. As poucas pessoas que nos notavam, acabavam fixando o olhar, porque a gente era diferente. Mas conto nos dedos as vezes em que isso aconteceu.
Meu problema foi mesmo a comida. Se você é um tiranossauro para comer, feito o Y., os restaurantes de Buenos Aires serão muito acolhedores: um bife de chorizo (corresponde ao nosso contra-filé, creio eu) é constituído por mais ou menos meio flanco do boi, bem passado por fora e vermelho e suculento por dentro, com uma quantidade generosa de gordura. Eu tinha nojo só de olhar. Me aventurei pelo frango, mas ele era também malpassado e não tinha tempero nenhum. Tentei comer massa, mas o molho era pesado e estranho. Também comi empanadas, uma espécie de risoles típico da Argentina, mas elas também pesam no estômago e enjoam. Acho que a melhor coisa que comi, além do café-da-manhã e dos Jorgitos, foi um omelete de presunto e queijo. No fim da viagem, tudo o que eu queria era um prato de arroz e feijão.
Pedir comida não era algo de muita dificuldade. Aliás, durante a viagem toda pude constatar que meu cursinho meia-boca de espanhol do CCAA foi de grandecíssima utilidade. Mas a gente sempre se depara com uma palavra nova:
- Señora, disse uma garçonete, no hay puré de papas, pero se puede cambiar por puré de calavaza.
- Que es eso?
- Es como puré de papas, pero de calavaza.
- Y que es calavaza?
A moça então teve de recorrer ao gerente, que veio com um cardápio com tradução em inglês:
- Dice aquí smashed roasted pumpkin. Ití is sweet!
Y. gostou do purê de abóbora, eu achei que faltava um temperinho.
Segue uma foto da última janta de Y:
Para aqueles que se perguntavam onde teria se metido essa pessoinha que vos fala, conto: para encanto de alguns, inveja de outros e horror de minha mãe (que acha uma afronta que uma moça solteira viaje com o namorado), passei uns dias em Buenos Aires com o Y. E posso garantir que foi a melhor viagem da minha vida.
Buenos Aires é legal pra caramba. Tem a inconfundível cara de metrópole, com seus aproximados 4 milhões de habitantes, mas é mais limpa, mais bonita, menos caótica que São Paulo. Os táxis são baratos, o metrô, apesar de tosco, é uma pechincha (70 centavos!) e um peso argentino vale no máximo R$ 0,70. É o milagre da multiplicação do dinheiro! No entanto, a Argentina não é o Paraguai e as compras não saem tão baratas. Não comprei nada para ninguém, mal comprei coisas para mim: um CD da Juana Molina (porque só encontrei o último), um do Kaiser Chiefs (achei uma versão "pocket" - original, mas sem encarte e em digipack - por 16 pesos), uma camiseta de La Boca, um par de sapatilhas baratas e uma revista linda com a Björk na capa. E um pacote de Jorgitos, sobre o qual falarei mais tarde.
Essa história de que os argentinos odeiam os brasileiros é, fora do estádio, uma grande besteira, assim como a idéia de que os portenhos (os buenosairenses) são metidos. Todo mundo com quem a gente socializou foi gentil e solícito, salvo por uns moleques que tiraram com a nossa cara quando a gente atravessou a rua correndo - aparentemente, as pessoas pouco fazem isso por lá porque os motoristas costumam respeitar os pedestres. Mas adolescentes são irritantes em qualquer lugar do mundo. O único momento de fúria portenha foi quando paramos para comprar chiclete do River Plate (!!!) e Y. resolveu perguntar se tinha do Boca Juniors:
- NO! DE BOCA NOOOOO!
A propósito, esqueçam também a noção que o Brasil é o país do futebol. A Argentina é que é. Lá, todos os estabelecimentos com TV passam canais de futebol, e meninas de quinze anos páram nas portas para ver o placar do jogo. É bizarro: é como se todo argentino fosse um corintiano doente, desses que não se pode juntar que já começam a pular e cantar os hinos.
Já que estamos a desmascarar os mitos, dois últimos fatos:
I. A tal Av. 9 de Julho não é a mais larga do mundo. Isso é coisa para inglês ouvir e voar correndo para um hotel ao lado do obelisco. Na verdade, o que existe é um grupo de avenidas paralelas, juntinhas, em torno da 9 Julho - a qual nem números tem, pois todos os imóveis estão nas avenidas marginais.
II. O melhor alfajor do mundo não é o Havanna: é Jorgito! O chocolate é gostoso, o biscoito é crocante, e o recheio de mousse é bem generoso. E pelo preço de meia dúzia de Havannas, você pode comprar mais de trinta Jorgitos. Nós os contrabandeamos aos montes para cá. Vale a pena!
Como esse post já está imenso, por ora encerro o relato. Amanhã conto como foi voar de avião e me sentir uma estrangeira pela primeira vez. E falo mais de comida, como é de praxe.
* é nóis na fita!
ouvindo: elena - juana molina
Engraçado como é impossível se relacionar com uma pessoa... e só ela. Você acaba levando no pacote a família, os namorados da família, a família dos namorados da família...Toda uma cadeia de gente de quem você sabe que deveria se esconder, mas acaba tentando agradar - tudo isso para mim é muito inédito e muito estranho. Será que eles gostam de mim? Será que eu tenho o direito de não me importar? Se tivesse, eu conseguiria?
Mas quem não poderia se divertir com tanto sal e mar e churrasco e alguém que te deixa ganhar no jogo de luta e o filme do Zico? Sério, vocês assistiram Uma aventura do Zico? Hilário!
ouvindo: the sky opened wide like the tide - the blow
Hoje eu sonhei que estava na casa de um sujeito que dizia criar um tigre de Bengala no quintal. Mas não era um tigre de Bengala qualquer: era um tigre de Bengala semi-controlado por um laptop. O tigre tinha vida enquanto o laptop estivesse ligado. Lá pelas tantas, resolveram soltar o tal do bicho do quintal. E não era nada parecido com um felino. Era uma moça. Era uma morena - o que é mais estranho ainda, já que o tigre de Bengala é branco. Mas ela rugia e corria como um quadrúpede, o que me obrigou a correr também, de medo, até prenderem de novo a moça. Já era noite e precisávamos desligar o laptop para que o "tigre" pudesse descansar. Mas o maldito do computador resolveu dar pau e não desligava. A fera rugia e rugia porque não conseguia dormir. A gente não podia ir ao banheiro porque ela botava a cara nos vitrôs e nos ameaçava. Nessa altura, não era mais uma moça, era um tigre de Bengala mesmo. Então, tentei a última estratégia: ctrl + alt + del + soco no botão. E funcionou. E o despertador tocou.
Alguma dúvida de que eu realmente não preciso de drogas?
Eu fico cozinhando idéias aqui dentro. Um monte de idéias flamejantes com alto potencial destrutivo. As pessoas passeiam ao meu redor, sem imaginar o que se passa. Uma paisagem tranqüila. E então, eu solto uma fumacinha e elas se assustam. Um tremor de terra, e se afastam.
Nem quero imaginar o que pode acontecer quando eu entrar em erupção.
ouvindo: past in present - feist
Hoje, quando eu chegava de Bauru na Barra Funda, a senhora do lado que vinha conversando com um policial no banco vizinho comentou:
- Ainda bem que já chegamos.
Ao que ele respondeu:
- Os passageiros da Tam também devem ter pensado isso quando o avião começou a pousar!
Felizmente, um ônibus tem chances infinitamente menores de explodir.
ouvindo: lie in our graves - dave matthews band
Eu estava vendo os vídeos da turnê da Björk (2 posts abaixo) e deparei com um objeto estranho no palco: uma espécie de tabuleiro fluorescente, no qual um sujeito movia umas peças que emitiam sinais luminosos. Essa coisa futurista tem nome - é o reacTable (com T maiúsculo, porque é um trocadilho). O reacTable é, em resumo, um sintetizador virtual. Não é surreal?
Fiquei pensando no conceito de sintetizador virtual e lembrei da UNESP. A gente passava horas debruçada em textos sobre pós-modernismo e novas mídias, textos escritos quando os computadores tinham menos memória que meu Ipod. OK, não tínhamos Ipod na época, mas já então a discussão toda me parecia um deslumbramento com algo antigo, ultrapassado. Mas o reacTable trouxe tudo de volta com um espanto: o tal do simulacro não é discussão de velhinhos assustados com a internet porque nasceram num tempo em que nem TV existia. O hiper-real não é só uma crítica ao "nefasto" mundo da comunicação "sensacionalista" ou publicitária. Está tudo acontecendo agora, nas nossas vidas!
Nos blogs, orkuts, myspaces, messenger e second lives afora, todo mundo é um simulacro, é uma cópia de si mesmo, uma paródia, um pastiche, uma colagem, qualquer coisa dita nO que é pós-moderno - qualquer coisa, menos o que se é de verdade! O vazio de sentido que para os autores que eu li era "vanguarda", hoje, por Deus, é rotina! Somos todos iguais aos filmes em que Nova York inteira explode, mas na verdade o que voa pelos ares é uma cidadezinha em miniatura. Nós exageramos nossa própria importância para sermos vistos, ampliamos e exibimos coisas mínimas: se apago meu scrap, imagino defender uma intimidade que na verdade não tem o menor valor; se escrevo meu cotidiano num blog, imagino minha vida algo de relevância suficiente para expôr ao mundo, quando na verdade... Cruzes! E eu que dava valor às palavras, fiquei me sentindo a maior ingênua. As palavras estão diluídas, no fim das contas nem há mais palavras, existem tags. E a sinceridade de alguém se mede pela quantidade de rótulos autodepreciativos que ela se atribui (por exemplo, participar de uma comunidade do tipo "eu só tenho um testículo" etc).
Acho tudo isso o fim da picada. Quero a volta do candeeiro, das pândegas, do mundo sem testimonial e sem miguxês, que pós-modernismo de cu é rola!
Já viram aqueles avisos ao lado da porta do elevador, escritos no português mais tétrico, que dizem "antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra neste andar"? Pois existe uma comunidade no Orkut que explica tudo. O Mesmo, na verdade, é um maníaco sanguinário que pode se esconder no elevador mais próximo; daí a necessidade de realmente nos certificarmos acerca de sua presença no andar, antes de entrarmos. E, nesse carnaval, descobri que o Mesmo já tem feito escola, em escala global. Nas fronteiras, também ronda os elevadores el Mismo, o maníaco argentino, mais assustador que o paraguaio daquela história célebre em que uma moça abre a porta e um homem diz:
- Yo soy el paraguaio. Tu marido me mandó para matarte.
- Para quê?
- Paraguaio!
Portanto, todo cuidado é pouco, meus amigos. Fiquem muito atentos!

♪ Good song - Blur
As Cataratas do Iguaçu continuam lindas, apesar de cercadas pelos ferozes quatis selvagens (pelo menos era o que dizia o guia). E não há como visitar Foz do Iguaçu sem uma passada no Paraguai para comprar unas muambitas... A quem for, recomendo uma volta nos táxis paraguaios; cortar a Ponte da Amizade a 120 por hora num Toyota podrão, cheio de bichinhos e santos pendurados, com um exclusivo ventilador de teto foi uma experiência inesquecível. Os paraguaios das lojas onde comprei atendiam bem e eram simpáticos. Um segurança até cutucou minha prima, sentada na escada de uma galeria, só para avisar que seu cofrinho estava à mostra:Também aprendemos uma valiosa lição de viagem: jamais se aventure em estrada de terra alheia, por melhor que falem dela. Tinha chovido e por pouco nossa picape sem tração nas 4 rodas não fica atoladinha. Por conta de contratempos, a viagem de volta demorou tanto que, quando chegamos a São Paulo, eu nem sentia mais a bunda. Mas, no geral, foi tudo ótimo.
Fica uma dica final: se no Carnaval de 2008 você não quiser ir ao Rio, mas fizer questão de ver a entrada da Mangueira, vá a Rolândia! E faça uma parada no auto-posto Pepinão!