8 posts tagged “viagens”
Acho que em qualquer área da produção humana que se debruce sobre a natureza subjetiva das coisas – seja a filosofia, a meditação, a semiótica psicanalítica – se chega à mesma conclusão: a de que todas as coisas contêm o seu oposto, ou mais ainda, a de que todas as coisas são o seu próprio oposto. Não são raros os exemplos de palavras que adquirem um sentido a partir de raízes que significavam justamente o contrário. Isso vale também para o amor e o ódio, a beleza e a feiúra, a humildade e a soberba, o feminino e o masculino, o ying e o yang. Um contém o outro e dele não se dissocia; um de certa forma é o outro porque a ele se opõe – como o seu reflexo no espelho é você, mas é você ao contrário.
Foi pensando nisso que uma das dúvidas que sempre tive a respeito de Deus se esclareceram. Eu dizia, como é que Deus, que é todo amoroso, pode condenar seus próprios filhos à tortura eterna se não forem bons o suficiente? Isso para mim não fazia o menor sentido. Mas agora acho que não poderia ser diferente. Só a maior fonte de amor do mundo poderia ser também a fonte da maior crueldade. E agora tudo faz muito sentido, Deus ser o alfa e o ômega, o Deus ciumento e vingativo do Velho Testamento e o Deus misericordioso da Boa Nova. O Deus que mata e humilha um Jesus Cristo para torná-lo sua glória mais luminosa. Se nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e nós somos a contradição, Deus só pode ser a Suprema Contradição.
Isso não significa que eu tenha passado a acreditar no inferno. Ou que tenha encontrado um sentido para a minha vida. A questão é abandonar essa lógica binária e maniqueísta que nos engole na hora de olhar as coisas. 0 e 1, o mocinho e o bandido, são formas da mesma coisa. No fundo, eu sempre soube.
Nada como viajar com fones de ouvido. Já dizia Björk: my headphones, they saved my life. Meus fones de ouvido também salvam minha vida. Nada como escutar alguma coisa bem boa sentindo o cheirinho do café do Prata, olhando as árvores correrem para trás e para trás pela janela.
My love is an analogy,
A haunted afternoon."
Não há dúvida de que a melhor vista do Rio de Janeiro é do alto do morro. A Pousada Favelinha apostou nisso e desde 2005 hospeda turistas de todas as partes do mundo. Com direito a um tradicional churrasco na laje - ou como eles dizem, BBQ on the rooftop. Sensacional. Um dos hóspedes afirma no guestbook: "Foi muuuuuuuuuuito bem! Eu gostaria de voltar! Tenha muito festa na carneval." Confira em www.favelinha.com e não perca a galeria de fotos!
Dia desses sonhei que estava tomando posse no cargo que atualmente almejo. E pareceu tão real!
Lembram de quando eu assisti Matrix pela primeira vez, depois li metade das Meditações Metafísicas de Descartes e pirei na batatinha achando que o mundo físico era uma criação da minha mente? Provavelmente não, já que na época eu ainda não sabia o que era blog. Mas como é gostoso revisitar essas angústias, não? É tão bom ir cutucando a ferida para deixá-la ainda pior do que a original! Agora, além de não ter certeza da existência das coisas, chego a duvidar das minhas próprias memórias, e o que é pior, das minhas próprias ideias - já que a linguagem me precede há milênios e não há nada de novo ou de minimamente original*. O bom é que a ferida teimosamente produz nova casca para a gente arrancar e, mesmo que ela eventualmente deixe de existir como ferida, sempre se faz presente como cicatriz.
A segunda parada da minha viagem de férias foi Bonito - MS. Infelizmente só fiquei por lá um dia e meio; dava vontade de ficar a semana inteira.
Bonito é legal quando se tem um carro e dinheiro. Os passeios são caros e todos localizados em fazendas longe da cidade (coisa de 15, 20 km em estrada de terra). E todos eles envolvem acessórios mais ou menos constrangedores.
O que eu mais recomendo é a flutuação, que é o que o nome diz: com roupinha de neoprene, colete salva-vidas, máscara e snorkel, você segue flutuando um trecho de rio, como se fosse um peixinho e pudesse nadar. Eles, os peixinhos, estão lá - e também os peixões, que parecem ainda maiores porque o óculos fornecido aumenta os objetos vistos em 25%. Graças à Deusa, porque senão eu, que sou míope, não ia ver nada.
E dá pra ver tudo, tudo, as plantas, os peixes, os caramujos, as pedras do fundo rio... é maravilhoso! Dá pra se sentir a própria Pequena Sereia, porque os rios de Bonito são totalmente transparentes, por causa da alta concentração de minerais que atua como um filtro. Dependendo do ângulo que você fotografa o rio, a água sequer aparece na imagem. Minha única tristeza foi não ter uma Digicam Waterbox - imaginem vocês as fotos que eu faria. Bem, estou mentindo; minha segunda tristeza foi ter saído da água com a música do Fagner na cabeça: "quem dera ser um peixe, para em teu límpido aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor pra te encantar..."
Outro passeio interessante é a Gruta do Lago Azul, que supostamente serviu de cenário para alguma novela da Globo com a Priscila Fantin numa comunidade hippie, sei lá. O lago é azul, azul de verdade, e é lindo no meio de todas as estalactites. Mas chegar lá exige uns bons metros de descida íngreme no meio das pedras, que eu só encarei porque vi umas velhinhas descendo e meu ego seria mortalmente ferido se eu ficasse.
Tirar fotos do lago é um tanto difícil, já que a gruta é um pouco escura, mas eu consegui algumas imagens nítidas deixando a câmera nas pedras. E depois de todo esforço, você olha para a entrada da gruta e percebe que tem que subir - o que é mais fácil, mas duas vezes mais cansativo. Fiquei com dor na perna durante os três dias seguintes.
O fim da viagem foi em Aragarças e Barra do Garças, duas cidades divididas pelo Rio Araguaia, uma em Goiás, e uma no Mato Grosso. Fui visitar a Vila Militar, lugar onde eu passei três idílicos anos da minha vida, e fiquei hospedada na casa dos nossos vizinhos nessa época. Eles não moram mais na Vila (que, aliás, anda meio decadente), mas continuam pessoas muito simpáticas - nem eu, que os conheci com 3 anos de idade, fiquei constrangida de estar lá. Foi bom rever gente do passado, gente que eu só lembrava como um conceito, do tipo "a mulher que fazia doce de leite" ou "a menina que me carregava de bicicleta". E tomar picolé de abacate e comer um peixe que ninguém nunca comeu em São Paulo. Eu gostei. E o melhor é que, depois de tudo, Y. foi me buscar em Bauru e eu pude abraçá-lo de novo depois de quase duas semanas. Incrível como, no meio de tantos deslocamentos, sobrou tempo para sentir falta... Se não fosse ele, quem poderia me proteger da Fiel Macabra, a torcida do Curíntia em Bauru? É assustador; a camiseta deles é o Eddie segurando a bandeira do time! Pra onde esse mundo vai?
Para quem se perguntou - e para quem não se perguntou - onde eu estive todo esse tempo, eu respondo: no mato! Fui viajar com meus pais para o Mato Grosso (do Sul, do norte), com parada em Goiás. E foi legal!
Nosso primeiro destino foi Corumbá. A cidade é o pólo do nhécoturismo na parte sul do Pantanal. Digo nhécoturismo porque há mais para se ver na estrada para lá do que em Corumbá mesmo. As paisagens alagadas só começam bem próximo, mas bem antes você já pode ter a sorte de encontrar livres, leves e soltos vários bichinhos: emas, veados (do tipo quadrúpede), tuiuius, tucanos, araras, siriemas, capivaras etc.
E é bem provável que seja pego por alguma boiada imensa atravessando a pista.
Mas, é fato: não é um safári, você avista a maioria dos bichos bem de longe, de vez em quando e rapidamente.
Corumbá é uma cidadezinha sem graça que só vendo. Os hotéis são poucos, caros e mixurucas. Quase não há lugares bons para se comer. E o passeio de barco pelo rio Paraguai é um tédio: duas horas num vento desgraçado para ver um troço escondido nas folhagens que diziam ser o flanco de um jacaré, mas poderia muito bem ser um pneu velho. Quanto aos jacarés, eles ficam predominantemente nas lagoas que se formam nas margens da estrada.
Existe uma com dezenas deles, perto de uma casinha de tábua com uma placa onde se lê "É O JACARÉ DO GLOBO RURAL" e "PEDI PARA ENTRAR AQUI TEM DONO". Você pode observá-los da ponte ou descer o barranco e tirar uma foto a um metro e meio do bicho, morrendo de medo, como eu fiz.
De Corumbá, demos um pulo em Puerto Guijarro, na Bolívia, que é horrível: ruas de terra, esgoto correndo no chão, criancinhas remelentas e muitas, muitas, muitas, muuuuuuuuuuuuuitas lojinhas de roupas. Umas roupinhas tão fajutas que dá saudade do Brás. Mais distante, em Puerto Aguirre, há um shopping estilo Paraguai, mas que não chega nem ao dedão do pé de um shopping paraguaio no quesito variedade e atendimento, além de ter preços mais altos.
Amanhã falo sobre a segunda parada: Bonito! Que já adianto, é linda!
Apesar de todas as minhas divagações filosóficas, eu ainda acho que existe um " Deus " - com aspas, porque eu não exatamente do que se constitui essa figura. Mas acho que a função desse Deus não pode ultrapassar as coisas espirituais: ele pode nos dar conforto, nos tornar aptos a amar, a aceditar nas coisas; mas seria muito injusto que esse Deus mandasse coisas materiais e acontecimentos bons ou ruins para uns e não para outros. Aí, eu acho que entra a importância do acaso.
O acaso é a quem verdadeiramente servimos, quer queiramos ou não. Devemos ao acaso a evolução e boa parte de tudo o que nos acontece e nos torna quem somos. É o acaso que faz com que pessoas talentosas e dedicadas sejam completamente esquecidas e verdadeiras farsas alcancem sucesso e reconhecimento.
E se tudo é uma questão de acaso, eu não tenho que me lamentar por ser uma dessas pessoas talentosas (dedicada eu nunca fui e nunca vou ser) que não são nada na vida. Acreditem: valorizar-se não basta, crer em si mesmo não leva a lugar nenhum. Eu sei, porque não existe um pingo de modéstia em minha pessoa. Mas, parafraseando algum poeta que esqueci, nunca sou nada, nunca serei nada etc. O acaso me ignora. Exceto pela vez em que conheci Y., o acaso sensacional do século. No mais, o acaso nunca quis saber de mim. Mas qual é o grande problema da mediocridade? Não há mérito em sobressair. Não há sequer mérito no mundo, só acaso.